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JORNALISMO PORQUE?

Meu nome e Francisco Jose Dias Cardoso, tenho 21 anos, sou natural das Ilhas de Cabo Verde(e e la que eu pretendo exercer a minha futura profissao) e vim aqui para estudar Jornalismo como 1a escolha, embora nao me desagrade as outras formas de comunicacao e correspondentes cursos.
Alguns factores levaram-me a escolher o Jornalismo como profissao futura. Vou contar o porque de ter escolhido o Jornalismo.
Por volta dos 7 ou 8 anos o meu sonho de crianca era ser comandante de um grande navio, fosse ele turistico ou militar, tendo em conta que a minha casa tem uma bela vista sobre uma baia, com um porto onde ainda eu consigo ver, de tempo em tempo, grandes paquetes e vasos de guerra. Mas a desilusao com a falta de perspectivas de um pais sem recursos financeiros apesar do grande potencial humano e natural, me levou a ter uma visao menos sonhadora mas tambem, menos dificil. Como qualquer jovem adolescente, eu gostava de praticar desporto, e o futebol era o preferido, mas essa profissao apesar de nao exigir qualificacao escolar obrigatoria, so os super-dotados tem possibilidades de sucesso, sendo por isso um sonho arquivado.
So tive consciencia do que queria, quando comecei a me interessar por jornais, noticiarios (nas estacoes de televisao e radio) e pela vida publica em geral, e principalmente pelo desporto e pela politica nacional (do meu pais ) e internacional.
Mas a qualidade dos jornalistas no meu pais deixava e continua a deixar muito a desejar, tanto na procura como no tratamento das noticias, e eu quero mudar isso. Parece um pensamento altruista, mas e o que eu quero fazer e vou fazer com todas as minhas forcas. Uma das "pechas" que o Jornalismo tem, e essa sua ligacao com a politica, em quaisquer niveis. Pressoes no trabalho, e principalmente a nivel monetario e o que existe mais, e no caso particular de Cabo Verde a influencia no trabalho do jornalista e demais evidente. A isencao e rara no trabalho dos jornalistas do meu pais, sendo praticamente impossivel devido ao controlo dos meios de comunicacao social pelo Estado e pelos principais partidos politicos do pais. Eu tenho sido critico, tanto dos aspectos negativos quanto dos positivos, tentando ter o maximo de isencao possivel, e o curso de Jornalismo podera dar-me um "calibre" etico e moral para por em pratica este ideal, pois, com um diploma numa mao e uma caneta(ou teclado) noutra poderei mudar algo.
Resumindo, o meu maior desejo de jornalista e ser isento e dedicado ao que faco, com certa dose de paixao, mas tambem, mudar o jornalismo em particular no meu pais, custe o preco que custar, leve o tempo que levar, sem exacerbacoes nem radicalismos.

FIM

PS: Texto de apresentacao ao docente da disciplina de Oficina de Comunicacao I, Miguel Martins, como forma de ele conhecer os seus formandos. Portalegre, Ano Lectivo 1998/1999. Apesar dos 21 anitos, nessa altura o texto denota alguma "ingenuidade" e "conservadorismo".

Desabafo ou Desaforo

Acabei de completar o 3o ano de um curso que desejei, gostei desde o inicio em finais de 1998 e, ate agora, nao me arrependi de ter escolhido. Ate agora!!!
O pior de tudo, e que nao sei ate que ponto ser Jornalista ou trabalhar na Comunicacao Social ou Empresarial tera alguma utilidade para "nha cretcheu", a minha terra que, penso eu, todos adoramos mas, que tao ingratamente nos trata, desde praticamente o inicio da sua povoacao, ate quando?!
Infelizmente nao tem sido o clima o nosso pior inimigo, mas sim a gestao irresponsavel e danosa do nosso patrimonio, natural e humano, e dos nossos recursos economicos, ja de si parcos, mas nos ultimos anos cada vez mais exiguos. Dos governantes, aos tecnicos superiores e medios do Estado, de alguns (os maiores "sanguessugas" do labor do povao) ao proprio cabo-verdiano, citadino principalmente, que esqueceu-se o que e trabalhar para ganhar a vida e so quer sobreviver a qualquer custo, mesmo que passando por cima dos "coitados".
Ainda nao sou trabalhador para ganhar a vida honestamente, mas pretendo se-lo em breve, se me deixarem...
E que com o decorrer da carruagem economica de Cabo Verde, os bolseiros ainda vao ter muito que penar para conseguirem a tao almejada independencia financeira em relacao ao nosso estimado Estado.
Mas, pergunto eu: Porque e que temos de cumprir o contrato celebrado com o Estado Cabo-verdiano, em como teremos de apresentar resultados satisfatorios, vulgo sucesso escolar ao fim de cada ano lectivo, e regressar ao torrao natal apos a conclusao da sua formacao, se o mesmo nao cumpre a sua parte do acordo? Nada mais nada menos que depositar uma determinada soma nas respectivas contas dos alunos. Soma essa que ate agora, tres anos depois, tem sido consecutivamente atrasado (atrasos que ja chegaram a ser de tres meses, ou seja, segundo o cambio portugues, qualquer coisa como 192 contos lusos 64 mil escudos por mes) e nunca revisto(neste momento, excluindo algumas excepcoes, mendigos, reformados e pensionistas, somos os que menos rendimentos possuem em Portugal cujo salario minimo e de 68.300 escudos).
Apesar das mudancas politicas terem dado uma esperanca aos bolseiros parece que a situacao nao tem perspectivas, a curto prazo, de ser melhorada. Muitos estudantes desejaram que o governo provisorio de Gualberto do Rosario fosse posto "na tchon" o mais breve possivel, na perspectiva de que a situacao, dos bolseiros em particular e do pais em geral, melhoria com possiveis novas ideias para dinamizar e restaurar as financas do Estado (deduzo pela situacao penosa por que passavamos ate Dezembro de 2000).
Mas, passados cerca de 6 meses desde a tomada de posse do Governo de Jose Maria Neves, pouco ou nada mudou da situacao de penuria.
Sim, sim, esforcos tem sido feitos para estabilizar as financas publicas. Mas, de barriga vazia e com a corda dos senhorios no pescoco nao ha condicoes para ter sucesso (no meu caso nem me posso queixar do aproveitamento, pois ja fiz o Bacharelato e falta-me um ano para completar a Licenciatura (the dream becomes true?!), porque tenho amigos, verdadeiros amigos na instituicao onde estudo e na cidade onde vivo, que me ajudam financeira e psicologicamente, para que a FORCA DE VONTADE nao va pelo "cano abaixo". Sei que muitos nem com isso podem contar.

Agora chegaram as ferias de Verao. Ferias e para quem pode e nao para quem quer, la diz o velho ditado adulterado, pois sem dinheiro e sem um lugar para morar (ha quem nao tenha familiares que os recolham nesta altura em que todos vao para casa e que as residencias de estudantes encerram as portas), a situacao fica preta na ja caotica situacao que vivemos num pais estrangeiro.
Mas, para surpresa de todos, eis que surgem boas novas. Sem que ninguem esteja a espera depositam-nos dois meses de bolsa num curto espaco de duas semanas. Porque?! Como?! Um espectaculo, dirao os mais credulos! Estranho, pensarao os pessimistas! O certo e que caiu como uma bomba de Carnaval (alegre), um presente de Natal (surprise!!!). Mas nao tempo do Rei Momo nem do Pai Natal. Portanto, sera algum sopro do "vento leste" que nos querera por o doce na boca para depois cobrar com juros e correccao eleitoral?! Que ela veio desafogar os afogados, nao ha duvidas, mas que tera agua no bico, tambem nao duvido. E podem exclamar que nunca estamos satisfeitos e que "entao nao queriam dinheiro, agora tem-no e reclamam a mesma!", e replico, aproveitando aquela velha maxima lusa: Dos politicos, nem bons ventos nem boas intencoes.
Senao vejamos: depois de meses a dizerem que a situacao estava (e esta) ma, e que iam diminuir as bolsas do pessoal no Brasil, e que os familiares tem de comecar a arcar com os custos dos estudos, e mais um rol de queixas, de repente, no dia anterior ao encontro do nosso Primeiro Ministro com o seu homologo portugues, chega o tal doce para encher e calar a boca aos estudantes. Podem nao achar estranho, mas eu acho e nao me vou contentar com a "prenda", a menos que me provem o contrario e que vamos passar a receber a bolsa a tempo e horas.
Quem sabe se qualquer destes dias nao escrevo outra missiva a auto-flagelar estas minhas palavras. Entretanto, neste momento e o que tenho a dizer.
Atenciosamente,
Francisco Cardoso

PS: Este texto foi escrito com um misto de indignacao e sarcasmo!!! Primeiro, pela desesperante situacao que muitos (a maioria) dos meus colegas compatriotas passaram durante os ultimos anos. Segundo, por ver aligeirada a situacao financeira precisamente na coincidencia da visita do PM a Portugal. Conveniente!!! Agora, passada essa epoca conturbada e de penuria, sei que valeu a pena aguentar tanto esforco, apesar de estar na certeza que ainda me "devem" 2 meses inteirinhos do meu ultimo ano como bolseiro.


PORQUE A VIDA E BELA...CARPE DIEM!